Transcrição de Chapeuzinho Vermelho, da Coleção Disquinho

A Coleção Disquinho é uma série antiga de áudiolivros de contos de fadas, fábulas e folclore que, apesar de já ter mais de 60 anos, continua fazendo sucesso aqui em casa com as crianças.

Dentre todas as histórias, a obra prima, na minha opinião, é Chapeuzinho Vermelho. As cantigas desta história, compostas por Carlos Alberto Ferreira Braga, se eternizaram no imaginário popular. Quem nunca ouviu aquela “Pela estrada afora, eu vou bem sozinha, levar esses doces para a vovozinha“? E “Eu sou o lobo mau, lobo mau, lobo mau, eu pego as criancinhas pra fazer mingau“?

Chapeuzinho Vermelho

Para além da célebre musicalização, também considero o texto muito bom. As rimas vistosas quase nos forçam a repeti-las e decorá-las. A opção por uma versão leve da história, ainda mais do que a já branda versão dos irmãos Grimms, mostra uma dicotomia claríssima do bem contra o mau, muito adequada para o nosso tempo, no qual as histórias adultas e infantis tornam-se cada vez mais difusas nesse aspecto. E, pessoalmente, não consigo não rir do exagero dos caçadores toda vez que penso em suas caçadas politicamente incorretas, dando mil tiros por dia em onças pintadas, pacas, tatus e cotias. Não é sem motivo que esses animais estão em extinção!

Portanto, considero essa versão de Chapeuzinho Vermelho excelente para ser trabalhada em sala de aula ou em casa, pelos pais, na alfabetização. E é justamente o que pretendo fazer nestas férias: a minha filha mais velha está indo para o terceiro ano do ensino fundamental, mas ainda precisa melhorar a prosódia na leitura em voz alta. A fim de sanar essa lacuna, vamos estudar juntos alguns textos de diferentes gêneros, ressaltando como cada um deles exige entonações e ritmos próprios.

A primeira atividade conjunta será a leitura compartilhada da transcrição de “Chapeuzinho Vermelho” da Coleção Disquinho, a qual compartilho a seguir e também em formato PDF. Você pode fazer o download da história em MP3 aqui.

Chapeuzinho Vermelho

Composição e adaptação: João de Barro; Arranjos: Radamés Gnattali.

[Chapeuzinho e sua mãe conversam em casa]

Mãe – Chapeuzinho!… Chapeuzinho!…

Chapeuzinho – Estou aqui, mamãezinha!

Mãe – Vai à casa da vovó, entregar esta cestinha: são doces, bolos e frutas; a vovó está doente.

Chapeuzinho – Vou correndo, mamãezinha! Vovó vai ficar contente.

Mãe – Mas, olha aqui, minha filha! Vai pela estrada do rio. O caminho da floresta é muito longo, sombrio. Os caçadores disseram, ontem, às nossas vizinhas, que o lobo mau anda lá, devorando as criancinhas.

Chapeuzinho – Não se assuste, mamãezinha, seguirei o seu conselho. Adeus.

Mãe – Adeus, minha filha. Vai, Chapeuzinho Vermelho.

Chapeuzinho (cantando) –

Pela estrada afora, eu vou bem sozinha,
levar esses doces para vovozinha.

Ela mora longe, o caminho é deserto
e o lobo mau passeia aqui por perto.

Mais à tardinha, ao sol poente,
junto à mamãezinha dormirei contente.

Pela estrada afora, eu vou...

[Lobo escondido atrás de uma árvore]

Lobo – Ei! Chapeuzinho Vermelho! Chapeuzinho, venha cá.

Chapeuzinho – Uai, quem é? Não estou vendo. Quem é você? Onde está?

Lobo – Não se assuste, tenha calma. Não pode me ver porque sou o Anjo da Floresta. Escute, aonde vai você?

Chapeuzinho – Vou levar estes doces à vovó que está doente.

Lobo – Muito bem, boa menina, vovó vai ficar contente. Mas se vai praquelas bandas, este caminho não presta. O rio anda muito cheio. Siga a estrada da floresta!

Chapeuzinho – Da floresta? Deus me livre! Mamãe disse, coitadinhas, que o lobo mau anda lá, devorando as criancinhas.

Lobo – Sua mamãe é medrosa! Mas que tolice, ora essa! Há muito que o lobo mau já se mudou da floresta. Agora, não há perigo e toda mata tem festa. Há framboesas maduras pelos caminhos ao léu. Há pitangas mais vermelhas do que a cor do seu chapéu. As borboletas azuis são pedacinhos do céu.

Chapeuzinho – Mas, seu anjo, tem certeza que o lobo mau já não mora mais na estrada da floresta?

Lobo – Tenho certeza, ora, ora. E pra falar a verdade, Chapeuzinho, desconfio que o lobo mau anda, agora, aí na estrada do rio.

Chapeuzinho – Então eu vou pela floresta, vou correndo. Credo, cruz! Adeus, seu anjo, até logo!

[Chapeuzinho sai]

Lobo – Ah! Tão boba quanto eu supus! Ah, ah, ah! Que grande peça! Isso é que é lobo matreiro. Ela nem viu que eu estava aqui detrás do ingazeiro. Sigo, agora, pela estrada do rio, vou bem ligeiro. E mesmo que ela se apresse, chegarei muito primeiro. Lá chegando, papo a vó, que é bem velha com certeza, e fico esperando a neta pra comer de sobremesa.

[Lobo sai cantando na direção da casa da vovó]

Lobo (cantando) –

Eu sou o lobo mau, lobo mau, lobo mau...
eu pego as criancinhas pra fazer mingau.

Hoje estou contente, vai haver festança,
tenho um bom petisco para encher a minha pança.

Eu sou o lobo mau, lobo mau, lobo mau...
eu pego as criancinhas pra fazer mingau.

Hoje estou contente, vai haver festança,
tenho um bom petisco para encher a minha pança.

[Lobo chega a casa da vovó]

Lobo – Ah! Deve ser aquela casa junto à curva do caminho. Chegamos… agora calma, batamos devagarinho…

[Lobo bate na porta]

Lobo – Ó, vovó. Ó, vovozinha…

Vovó – Quem bate? Quem está, aí fora?

Lobo – Sou eu, sua netinha. Trago uns doces pra senhora.

Vovó – Não pode ser, está voz não é dela; tão mudada!

Lobo – Sou eu, sim, minha vozinha. Amanheci resfriada.

Vovó – Então, entre, Chapeuzinho. Chega aqui, junto à lareira.

[Vovó abre a porta e o lobo a ataca]

Lobo – Aaaaaaah!

Vovó – Socorro! Ah, meu Deus, é o lobo!

Lobo – Vais pro papo, feiticeira!

[Lobo engole a vovó]

Lobo – Ha! ha! Que maravilha! Que grande goela é a minha! Apesar de um pouco dura, comi a velha inteirinha. Visto, agora, a camisola, a touca, o chalé vermelho. Devo estar qual tal a velha. Vejamos que diz o espelho. Falta ainda alguma coisa… os óculos! Estupendo! Perfeito! Que coisa louca! Que artista se está perdendo. Muito bem, agora cama, descansemos um pouquinho, esperando a sobremesa que vem aí a caminho.

[Lobo dorme roncando]

[Chapeuzinho chega cantando a casa da vovó]

Chapeuzinho (cantando) –

Pela estrada afora, eu vou bem sozinha
levar esses doces para vovozinha.
Ela mora longe, o caminho é deserto e o lobo mau passeia aqui por perto...

[Chapeuzinho bate na porta]

Chapeuzinho – Vovó… vovó… vovozinha.

Lobo fantasiado – Quem bate sem ordem minha?

Chapeuzinho – Sou eu, vovó, Chapeuzinho.

Lobo fantasiado – Hum… pode entrar, minha netinha.

Chapeuzinho – Bom dia, vovó!

Lobo fantasiado – Bom dia! Chega aqui na minha frente.

Chapeuzinho – A vovozinha hoje está com uma voz tão diferente.

Lobo fantasiado – Não é nada, minha filha. Acordei um pouco rouca. À noite fez muito frio e eu fui lá fora sem touca.

Chapeuzinho – Vovozinha, vovozinha… você não vai se zangar, mas, para que são esses olhos tão grandes?

Lobo fantasiado – Pra te espiar.

Chapeuzinho – E este nariz tão comprido, tão feio?

Lobo fantasiado – Pra te cheirar.

Chapeuzinho – E esta boca, vovozinha, tão grande?

Lobo fantasiado – Queres saber? Ah! Ah! Ah! Queres mesmo? Então, é pra te comer!

[Lobo salta da cama e corre atrás de Chapeuzinho]

Chapeuzinho – Uai! Uai! Uai! Mamãe! Vovozinha! O lobo!

Lobo – Não adianta, beleza. A vovó já está no papo, vai agora a sobremesa.

Chapeuzinho – Seu lobinho, tenha pena!

Lobo – Vou te fritar nesse tacho. Ah! Fugiste?! Abre essa porta. Abre, senão, boto abaixo!

[Chapeuzinho se esconde no armário]

[Trombetas tocando, cachorros latindo]

Lobo – Que isso? Que estou ouvindo? Não, seria uma desgraça! Não pode ser, mas parecem latidos de cães de caça. Os caçadores andavam caçando por trás dos morros. Será que me farejaram, esses malditos cachorros?! Sim, são eles, vêm chegando. Ouço as trompas, o alarido, vou fugir… agora é tarde, chegaram, estou perdido!

[Cães latindo]

Caçador – Abram a porta! Depressa! Senão, a ponho no chão! Abram, senão, eu arrombo! Não querem abrir?! Então…

[Porta caindo ao chão. Cães latindo]

Caçador – Pega! Pega, Boca Negra! Agarra o lobo, Trovão!

[Lobo é morto]

Caçador – Este já está liquidado. O tiro foi bem na testa. Não comerá mais crianças nos caminhos da floresta.

[Chapeuzinho chorando]

Segundo Caçador – Estais ouvindo uns soluços?

Caçador – Alguém chorando baixinho. Quem está aí? Quem está aí dentro?

Chapeuzinho (choramingando) – Sou eu.

Caçador – Eu quem?

Chapeuzinho – Chapeuzinho.

Caçador – Pode sair, minha filha, já não há nenhum perigo. Nossas fiéis carabinas liquidaram o inimigo! Não chores, minha menina. Não ficarás mais sozinha.

Chapeuzinho – Mas, a questão é que o lobo devorou minha vozinha.

Caçador – Que horror! Que barbaridade! Não chores, porém, criança, pois nem tudo está perdido quando resta uma esperança. Abriremos a barriga do lobo e a vovó querida, como foi comida há pouco, talvez ainda tenha vida. Tragam, depressa, os facões. Vamos abrir com cuidado, pois eu sinto alguma coisa mexendo, aqui, deste lado. Cortem aqui. Mais acima. Outro corte. Mais um só. Achei! Respira! Ainda vive!

Chapeuzinho – Vivinha! Viva, vovó!

Vovó – Ó, Chapeuzinho! Que susto.

Chapeuzinho – Coitada da vovozinha.

Vovó – Tudo porque desprezaste o que disse a mamãezinha. Agora, tem que voltar novamente pela estrada. A noite já vem chegando, vou ficar preocupada.

Caçador – Não se incomode, senhora. Nós vamos para aqueles lados, levaremos a menina. Não precisa ter cuidados.

Vovó – Então, adeus, Chapeuzinho! E não te esqueças, querida: mamãezinha é o anjo bom que zela por tua vida!

Caçador e Chapeuzinho cantando –

 Nós somos os caçadores e nada nos amedronta!
 Damos mil tiros por dia, andamos terra sem conta.
Varamos toda a floresta, por vales e serranias! Caçando onças pintadas, pacas, tatus e cotias!
Nós somos os caçadores e nada nos amedronta! Damos mil tiros por dia, andamos terra sem conta.
O lobo mau já morreu! Agora tudo tem festa. Posso caçar borboletas, posso brincar na floresta!
Nós somos os caçadores e nada nos amedronta! Damos mil tiros por dia, andamos terra sem conta.
Varamos toda a floresta, por vales e serranias! Caçando onças pintadas, pacas, tatus e cotias!
Nós somos os caçadores e nada nos amedronta! Damos mil tiros por dia, andamos terra sem conta...

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