Como ser Feliz: Um Guia para Crianças

Por que certas crianças parecem ser mais tristes e choronas do que o normal? E, por outro lado, por que algumas delas estão sempre com um sorriso no rosto, mesmo vivendo nos piores meios possíveis?

O que a ciência tem a nos dizer sobre a felicidade?

No post de hoje, um mini guia para crianças de como ser feliz, vamos discutir as bases biológicas e genéticas da felicidade, as chances de termos um bebê “ansioso” e um simples segredo (acessível a todos) para uma vida feliz.

Tudo diretamente da fonte, o livro “A Ciência dos Bebês”, do biólogo molecular americano John Medina.

Primeiro, o que significa ser feliz?

O principal objetivo da vida de alguns pais é fazer seus filhos felizes. Mas o que eles querem dizer com isso? O que significa ser feliz? Acredito que a maioria das pessoas não tem uma resposta na ponta da língua para essa pergunta.

No livro “Stumbling on Happiness” (“Tropeçando na Felicidade”), o professor de psicologia Daniel Gilbert propõe três definições bem abrangentes para o que seja a felicidade:

  • Felicidade emocional: um estado subjetivo, transitório, incitado por algo objetivo no mundo real, embora, em última instância, sem vínculo com ele. É o que normalmente as pessoas entendem por felicidade.
  • Felicidade moral: entrelaçada com a virtude, a felicidade moral é mais semelhante a um conjunto de atitudes do que a um sentimento subjetivo e espontâneo. Gilbert remete-se ao termo grego eudaimonia, que aparece nos trabalhos de Aristóteles.
  • Felicidade por julgamento: é o tipo de postura que alguém exibe quando diz, por exemplo: “estou feliz porque a Estela comeu tudo!” Trata-se de um julgamento sobre algo, não em termos de algum sentimento subjetivo e transitório, mas como uma fonte potencial de bons sentimentos (“a Estela comeu tudo, a minha missão está cumprida, então fico mais feliz”).

Se pararmos um pouco para pensar, veremos que essas definições valem realmente para infinitos momentos da vida. Contudo, ter infinitos caminhos para diferentes tipos de felicidade não é de muita serventia. Será que não existe uma solução certa e duradoura para a felicidade, útil a qualquer pessoa?

Para os cientistas, parece que sim. Vamos “descobrir” logo abaixo a principal fonte da felicidade, de acordo com o mais antigo estudo da história da ciência (moderna) norte-americana.

O segredo da felicidade

Se você quer felicidade: por uma hora, tire uma soneca; por um dia, vá pescar; por um mês, case-se; por um ano, herde uma fortuna; pela vida toda, ajude outra pessoa.

A fim de descobrir o segredo da felicidade, um estudo iniciado em Harvard (sempre Harvard…) em 1937 , recrutou 268 estudantes para serem avaliados ao longo de suas vidas. Durante sete décadas, eles passaram por diversos tipos de exames: físicos, psicológicos, antropológicos, econômicos, entre outros.

Depois de todos esses esforços, você pode imaginar a que conclusão chegou o grupo de pesquisa responsável pelo estudo? George Vaillant, chefe da equipe por várias décadas, resume assim o trabalho:

“A única coisa que realmente importa na vida são as suas relações com as outras pessoas.”

Em outras palavras, as amizades bem sucedidas são o melhor indicador da felicidade. Mais do que isso: quando uma pessoa atinge a meia-idade, as amizades são o único indicador universal da felicidade.

E quanto mais íntima a relação, melhor. Um colega de Vaillant mostrou que as pessoas não alcançam os 10% do topo da pilha da felicidade ao menos que estejam envolvidas em um relacionamento romântico. O casamento é um importante fator. Cerca de 40% dos adultos casados ​​se descrevem como “muito felizes”, contra 23% dos não casados.

Esta imagem é do “carômetro” da 1ª série C da turma de 1992 do Centro Pedagógico da UFMG. É um “Facebook das antigas”. Manter contato com vários desses colegas, ainda que raramente, me dá uma grande alegria. Mas o que realmente me deixa profundamente feliz é saber que tenho neste grupo verdadeiras amizades, que perduram há mais de 20 anos. E já que tenho uma esposa maravilhosa, posso me considerar no top 10% dos mais felizes. Gloria tibi Domine.

Esta imagem é do “carômetro” da 1ª série C da turma de 1992 do Centro Pedagógico da UFMG. É um “Facebook das antigas”. Manter contato com vários desses colegas, ainda que raramente, me dá uma grande alegria. Mas o que realmente me deixa profundamente feliz é saber que tenho neste grupo verdadeiras amizades, que perduram há mais de 20 anos. E já que tenho uma esposa maravilhosa, posso me considerar no top 10% dos mais felizes. Gloria tibi Domine.

Obviamente, pesquisas posteriores confirmaram e complementaram o estudo de Harvard, mostrando que os seguintes comportamentos também ajudam a predizer a felicidade:

  • fazer atos altruístas constantemente;
  • listar as coisas para as quais você é grato, o que gera sentimentos de felicidade a curto prazo;
  • cultivar uma atitude geral de gratidão, o que gera sentimentos de felicidade a longo prazo;
  • compartilhar novas experiências com entes queridos;
  • perdoar rapidamente pequenas desfeitas das pessoas amados.

E o dinheiro? Traz ou traz a felicidade? Segundo o Journal of Happiness Studies, prosperidade financeira e felicidade se separam a partir de uma renda anual de U$ 50.000,00. Isto é, acima desse valor, a felicidade sofre pouca influência da renda. Haja vista a diferença abissal que existe entre ganhar U$ 50.000,00/ano nos Estados Unidos e R$ 110.000,00/ano no Brasil, me recuso a fazer qualquer comentário sobre nossa triste realidade.

Como fazer amigos (sem influenciar ninguém)

Bem, agora basta aplicar essas descobertas à vida dos nossos filhos. Aqui em casa, primeiramente, vou me preocupar com a religião (não comentada no livro, mas, para mim, prioridade máxima no assunto felicidade). Em seguida, vou tentar mostrar às minhas meninas como fazer e manter os amigos. Talvez elas nem precisem ler o clássico de Dale Carnegie caso desenvolvam as seguintes habilidades:

  • regulação emocional; e
  • nossa velha amiga, a empatia.

Regulação emocional

Décadas de trabalho e milhões de dólares em investimentos levaram os cientistas a uma das conclusões mais óbvias do mundo: todo mundo gosta de conviver com quem é legal, educado, atencioso e benevolente. O tempo e o dinheiro não foram de todo em vão porque as pesquisas conseguiram mostrar que o diferencial dessas pessoas privilegiadas são suas as funções executivas bem desenvolvidas e, mais relevante, o seu controle emocional.

Como é complicado definir o que é uma emoção, vamos nos preocupar somente com o que ela faz, pois isso basta para descobrir a base da regulação emocional.

Aprendendo sobre emoções com o Robocop

Se você era fã da “Sessão da Tarde”, provavelmente assistiu pelo menos um vez “Robocop”, o filme sobre o policial ciborgue que combatia o crime na cidade de Detroit. Depois da arma que saia da sua perna, o segundo recurso tecnológico mais legal do Robocop era o seu visor, capaz de diferenciar os bandidos dos cidadãos de bem.

De acordo com John Medina, esse tipo de filtragem é semelhante ao que uma emoção faz no nosso cérebro. Ela simplesmente ativa os circuitos neurológicos que priorizam nosso mundo perceptual em duas categorias: coisas que devemos prestar atenção e coisas que podemos ignorar sem problemas. Já um sentimento, que é um evento diferente, é a experiência psicológica subjetiva que emerge dessa ativação.

Levando essa teoria à realidade das nossas crianças: com 6 meses de vida, um bebê pode experimentar surpresa, repulsa, felicidade, tristeza, raiva e medo. Contudo, ele não tem ainda sistemas de filtragem e de comunicação bem desenvolvidos. Sendo assim, o choro é a ação mais eficaz que ele tem para fazer você prestar atenção nele (ainda que o seu visor fique vermelho de raiva no meio da madrugada).

A criança pequena também não sabe falar, nem está completamente ciente das emoções pelas quais está passando. O cérebro dela não está pronto ainda. Enquanto isso não ocorre, os pais deverão se atentar para o fato de que a criança poderá agir com raiva quando na verdade está triste, ou ficar de cara fechada sem nenhuma razão aparente.

Mas é importante não contar só com a ação da natureza. Os pais precisam ensinar a seus filhos o meio socialmente correto de expressar suas emoções. Regulação emocional é isto: controlar as emoções, cientes que existem contextos sociais onde certos comportamentos são apropriados e outros não. Não é de bom tom ficar dando gargalhadas em um velório, nem ficar com cara de defunto em um casamento.

Pessoas que regulam bem suas emoções geralmente têm muitos amigos.

Empatia, a cola dos relacionamentos

Para ter empatia, seu filho deve cultivar a habilidade de espreitar pelo psicológico das outras pessoas, compreender fielmente os seus sistemas comportamentais de recompensas e de punições, e então responder com gentileza e compreensão.

A capacidade de aprender a empatia pode ter uma parcela genética. Alguns cientistas acreditam que ela tem relação com os neurônios espelho, que são os responsáveis por aquele mal estar, por aquela quase dor que você sente quando vê seu filho tomar uma injeção.

Para saber mais sobre a empatia, leia ESTE post, no qual a descrevemos com mais detalhes.

Felicidade ou tristeza podem ter origem genética?

Os pais já sabem há séculos que os bebês vêm ao mundo com um temperamento inato. O temperamento humano é um conceito complexo, multidimensional — o jeito característico de uma criança responder emocional e comportamentalmente a eventos externos. Essas respostas são bastante fixas e naturais; você pode observá-las em um bebê logo após o nascimento.

Os pais muitas vezes confundem temperamento com personalidade, mas eles não são a mesma coisa. Os psicólogos experimentais costumam descrever a personalidade em termos mutáveis, como um comportamento formado principalmente por fatores parentais e culturais. A personalidade é influenciada pelo temperamento da mesma forma como uma casa é influenciada pela sua fundação. Muitos pesquisadores acreditam que o temperamento fornece os blocos de construção emocionais e comportamentais sobre os quais a personalidade é construída.

O primeiro trabalho relevante a provar a existência do temperamento inato nos seres humanos foi realizado pelo cientista Jerome Kagan. Ele estudou especificamente uma camada do temperamento: como os bebês reagem quando expostos a coisas novas. Kagan descobriu que uma em cada cinco crianças tem um temperamento altamente reativo. Quando pequenas, essas crianças tendem a ser mais choronas e introvertidas, o que pode dar a impressão de elas serem mais tristes. Mas como mostra este excelente resumo do trabalho de Kagan, a alta reatividade não é de forma alguma uma característica negativa, nem um limitante para uma vida feliz. Por exemplo, os bebês altamente reativos tendem a ter um desempenho acadêmico melhor do que os bebês pouco reativos. Também se envolvem menos com drogas e sofrem menos acidentes.

Não há genes nem da felicidade, nem da tristeza. O máximo que os cientistas já encontraram foram indicadores da origem genética da resiliência, que é a capacidade de se recuperar após situações difíceis ou traumáticas.

De qualquer forma, é bom sempre lembrar que tendência, temperamento, mesmo personalidade não é destino. A vontade individual é a verdadeira soberana no direcionamento da vida.

E enquanto a ciência não descobre mais sobre esses temas, nem cria testes para facilitar a vida dos pais, o entendimento das sementes da felicidade terá que vir do conhecimento profundo da alma de nossos filhos.

Próximo capítulo: Mais sobre empatia e controle de emoções

No próximo post, sobre o capítulo “Bebês Felizes: Solo”, vamos continuar este guia para crianças. Encontraremos muitas dicas sobre paternidade eficaz, com foco em controle das emoções e desenvolvimento da empatia.

(crédito das imagens: Flickr 1, 2, e 3; Pexels 1)

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