Mãe Saudável, Bebê Saudável

Você já ouviu falar que se uma gestante ouvir Mozart durante a gravidez, o seu bebê ficará mais inteligente? Será que é verdade? No post de hoje, o segundo da série sobre o livro “A Ciência dos Bebês”, vou contar um pouco do que o pesquisar americano John Medina descobriu a respeito do cérebro dos nascituros, além de listar quatro ações cientificamente comprovadas que ajudam no seu desenvolvimento.

Primeira metade da gravidez: silêncio!

As melhores pesquisas sobre o desenvolvimento uterino indicam que a melhor coisa que os pais podem fazer para o bebê na primeira metade da gestação é: não fazer NADA. Nenhum estímulo (estímulo quer dizer tocar música para o feto, apertar a barriga, etc.). Mas por quê?

O útero é um lugar escuro, quente, úmido e muito mais silencioso que o exterior. E é bom que seja assim. É nesse ambiente que as células embrionárias irão se transformar em neurônios a uma taxa de 8.000 células por segundo. É um grande trabalho para ser realizado em curto espaço de tempo. Acredita-se que quanto menos interferências o útero sofrer nessa fase, maiores as chances de correr tudo bem.

Além disso, as pesquisas indicam que não existe ainda nenhum produto comercial capaz de aumentar o “desempenho” do cérebro dos bebês em gestação. Nem mesmo as músicas do Mozart.

(Será? Se bem não faz, mal também não — melhor Mozart do que o funk do vizinho. Confio no que disse Boécio, filósofo cristão do século VI:

“A música está naturalmente associada a nós e pode enobrecer ou corromper os costumes.”

Tudo sem exagero, claro.)

Evitando problemas

À medida que o feto cresce, o seu cérebro passa por transformações fabulosas. Para não estender demais o post (e não escrever besteiras), não vou entrar nos detalhes.

É vital que o tubo neural se desenvolva corretamente para evitar principalmente dois problemas: a espinha bífida, que é uma protuberância ou tumor na parte inferior da medula espinhal; e a anencefalia, que é a ausência parcial do encéfalo e da calota craniana.

A solução preventiva dada pela medicina é o ácido fólico (vitamina B9). Entre outros benefícios, ele ajuda a formar ambas as terminações do tubo neural. As mulheres que tomam ácido fólico estão 76% menos susceptíveis a ter os problemas citados acima do que as mulheres que não o tomam.

Quando o bebê pode ouvir, ver, cheirar…?

Se na primeira metade da gravidez o corpo estava preparando o aparato neuroanatômico, na segunda metade a história é outra. Ocorre progressivamente a mudança da neurogênese para a sinaptogênese, isto é, da criação majoritária de neurônios para a criação majoritária das sinapses, que tem uma sensibilidade muito maior ao mundo externo.

Uma vez que esse processo se expande, os bebês começam a perceber e a se lembrar de estímulos como sons e cheiros.

O principal marco é o 3º semestre da gestação (6 meses). Para esse período, podemos listar algumas reações dos bebês:

  • Tato: quase toda a superfície da pele é sensível ao toque e eles já demostram a capacidade de esquivar-se (de uma agulha em uma biópsia, por exemplo);
  • Visão: o batimento cardíaco se altera quando uma luz forte é direcionada para a barriga;
  • Audição: os bebês reconhecem a voz da mãe e irão prefiri-la a outras vozes após o nascimento; também conseguirão se lembrar de músicas ou textos que ouviram com bastante frequência;
  • Olfato: eles podem sentir o perfume da mãe e detectar o alho na pizza que ela acabou de comer;
  • Paladar: a preferência do bebê por certos alimentos será alterada pela dieta da mãe nas últimas semanas de gestação (essa todo mundo já sabe!)

Minha esposa eu aproveitamos bem essas informações. Ela comeu muitas frutas durante toda a gravidez e hoje a Estela não recusa nenhuma delas. E eu repeti ad infinitum a palavra papai nas minhas “conversas” com a barriga. Sabe qual foi a primeira palavra que a Estela disse?

4 ações comprovadas que ajudam o cérebro dos bebês

Todos os comportamentos que comprovadamente ajudam no desenvolvimento do cérebro dos nascituros têm como princípio o EQUILÍBRIO: nada em falta, nada em excesso. O autor inclusive utiliza a expressão “princípio de Cachinhos Dourados”, remetendo-se à fábula da garotinha que gosta mais da cadeira, da comida e da cama do bebê urso, que representa o meio entre opostos.

1. Ganho de peso correto

O QI do bebê é uma função do volume do cérebro. O tamanho deste prediz 20% da variância nas pontuações de QI. O volume do cérebro está relacionado ao peso do bebê. Então, em certa medida, bebês maiores significa bebês mais espertos.

Mães de bebês pequenos, não saiam da página ainda! Cabem aqui várias ressalvas. Primeiro, nem para o autor do livro o QI é o melhor indicador de inteligência. Segundo, estamos falando de estatísticas; conheço pessoas que nasceram com 6 ou 7 meses e são inteligentíssimas. Terceiro, não podemos nos esquecer do equilíbrio. Bebês muito grandes (mais de 4 quilos) estão mais propensos a sofrer que hipóxia (restrição de oxigênio) e outros danos durante o parto.

Se o IMC da gestante estiver entre 25 e 29,9, ela vai precisar engordar entre 6,8 e 11,3 kg para ter um bebê saudável. Se o IMC estiver abaixo de 18,5, ela vai precisar ganhar entre 12,7 e 18,1 kg. O ganho de peso no final da gravidez é o mais relevante para o desenvolvimento do cérebro do bebê.

Última ressalva: esses são dados americanos. Quem tem filhos e já fez comparações entre sites de médicos brasileiros e de americanos sabe como existem diferenças que nós, leigos, custamos a entender e aceitar.

2. Alimentação saudável (com muito peixe!)

Qual o desejo de grávida mais estranho que você conhece? Alguns citados no livro: talco, carvão, terra… esta última é bem comum, inclusive.

Não há, contudo, nenhuma evidência científica que ligue esses desejos a necessidades nutricionais dos bebês. O assunto ainda é um mistério para os cientistas.

Sobre a alimentação correta, quase nenhuma novidade: frutas, vegetais, ferro… e ômega 3-s. Os neurônios precisam muito de ômega 3. Estudos mostram que crianças que comem muito peixe — alimento rico em ômega-3 — são mais inteligentes. O mesmo vale para os fetos (via alimentação da mãe, óbvio). Não é grande a diferença no resultado entre as grávidas que tiveram uma dieta rica em ômega 3 e as que não tiveram. Mas ela existe e não deve ser ignorada.

Os pesquisadores recomendam comer 300 gramas de peixe com baixo teor de mercúrio por semana. Atum e sardinha são ótimas opções.

3. Stress controlado

O stress materno pode influenciar profundamente o desenvolvimento pré-natal. Já está provado que os hormônios do stress podem alcançar o bebê, podendo causar muitos problemas: mudança de temperamento, diminuição do QI, inibição das habilidades motores, diminuição da capacidade de concentração, alteração do sistema de resposta ao stress, entre outros.

Nos próximos posts, vou voltar ao assunto, pois o livro cita várias formas de diminuir o stress e a ansiedade das mulheres durante a gestação. Algumas dicas podem ser encontradas em um dos sites do autor (não consultei).

4. Exercício físico moderado

São vários os benefícios dos exercícios físicos para as grávidas. Por exemplo, as mulheres que estão no seu peso ideal passam metade do tempo na 2ª fase do trabalho de parto (expulsão do bebê), quando comparado com as que estão obesas. Consequentemente, aquelas sentirão menos dores. Outra vantagem da “saída rápida” é diminuir a chance do bebê sofrer uma privação de oxigênio.

Reiterando a importância do equilíbrio, o livro mostra como o excesso de exercícios pode aumentar desnecessariamente o batimento cardíaco do bebê e a temperatura do útero, o que pode afetar negativamente o cérebro e os olhos da criança.

Mestres da sobrevivência

John Medina termina o primeiro capítulo lembrando que a espécie humana vem tendo muito sucesso na sua função multiplicadora há milhares de anos. Mesmo sem todo o conhecimento que temos hoje.

Não é porque a mulher não gosta de peixe ou teve um parto difícil que o seu bebê não se tornará uma criança feliz e esperta. Tenho um grande exemplo aqui em casa: mesmo sendo cesária, o parto da Estela teve complicações (Apgar 3); com 3 meses ela caiu de um metro e teve um traumatismo craniano (assunto para post futuro); mesmo assim tenho uma filha que com 1 ano já gosta mais de livros do que de bonecas!

Próximo capítulo: Relacionamentos

Continuando a saga da maternidade, John Medina escreve sobre os efeitos dos relacionamentos dos pais no desenvolvimento da criança, tanto no útero quanto na infância. Prepare-se para mais um post longo, com muitas informações interessantíssimas!

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